Mariana Gouveia

Minha nossa estranha loucura

Por isso, preste atenção nos sinais –
não deixe que as loucuras do dia-a-dia
o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.
Carlos Drummond de Andrade

A primeira vez que a palavra loucura atravessou minha vida foi ainda quando era criança. E a curiosidade assombrava-me os dias. Ela morava do lado da minha casa. Devia ter quase a mesma idade que eu. Os cabelos longos e os olhos medrosos através das cortinas, eu via sempre que dava pela fresta da janela.
Algumas vezes eu ouvia gritos rua afora. Mas até aí, nada demais. Meus irmãos gritavam várias vezes, todos num uníssono som, seja pela bola de gude perdida, seja pela pipa arrebentada, seja pelo gol perdido. Grito nem era sinônimo de loucura – argumentei várias vezes com minha mãe – Eu a achava normal. E a sentia leve quando nossos olhares se cruzavam no relance entre um bailar de cortina, ou do vento que parecia que ela adorava. Para que respeitássemos algumas regras havia sempre a rigidez das minhas irmãs mais velhas e a qualquer tumulto elas mencionavam chamar a menina louca. O que causava silêncio imediato entre meus irmãos. Eu mentalmente desejava que chamasse. Só não tinha coragem de admitir.
Nosso primeiro encontro de fato, aconteceu numa tarde em que por descuido meu, ou de minha mãe, o quintal me coube livre, sozinha. Silêncio ruminando nas ruas. Ela estava na beira da cerca de arame, que separava nossos quintais. Os braços abertos e o corpo rodopiavam ao som do vento. Um riso intenso no olhar. Parou tudo quando me viu. Eu e minha boneca Maricota, feita de tecido preto, cabelos grenhos e boca vermelha. Os olhos pararam no brinquedo que eu trazia sempre. E sem saber como e porque entreguei Maricota através da cerca. Os olhos ávidos e as mãos que ajustavam os cabelos da minha boneca de pano.
– Foi minha mãe que fez. Você tem boneca também? – arrisquei.
O sacudir negativamente com a cabeça me causou emoção e pena. Eu não podia imaginar alguém sem boneca.
– O que é ser louca? – na minha curiosidade de menina perguntei, já imaginando o resgate de Maricota entre as mãos dela.
– Você tem medo de mim? – e nos olhos dela eu vi a esperança de que eu dissesse não. E naquele momento não tinha mesmo.
– Medo não. Curiosidade. – vozes de mãe e irmãos que chamavam meu nome.
Voz de mãe que chamava por ela e Maricota que pendia a cabeça na entrega que ela fazia através da cerca. E eu deixando que ela levasse minha boneca de anos. E o riso dela agradecendo o gesto. E os lábios que murmuravam um “ amanhã eu te entrego”. E o vulto dela entrando casa afora. Um aceno de tchau que jurei ver entre as cortinas.
A primeira vez ensaiou outras vezes. Algumas, permitidas pelas mães que acharam que uma cerca de arame farpado não causava perigo.
Outras, no subterfúgio da noite onde dançávamos com o vento, cada uma no seu quintal. Rindo como se fossemos loucas, mas sabíamos que não éramos. Também ganhei a fama de louca por brincar com a menina que sonhava com o vento. De repente, as portas já não se fechavam mais, porque vivíamos na doce loucura de descobrir a vida. E isso, já não causava mais medo em ninguém.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês da amizade e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

11 comentários em “Minha nossa estranha loucura

  1. Menina…menina Mariana, a Gouveia. Menina Mariana, minha irmã. Você é tão bonita! Você não sabe, mas eu sei que você é fundadora de uma escola de aceitação. Você me lembra uma avó minha e uma uma mãe minha falando de uma avó minha. Assim, igualzinha a você e heroína das mesmas aventuras. Eu sou de uma família de loucos gentis ( não estou brincando, loucos gentis…mesmo) e então, e então vos entendo, acho. Abraço carinhoso e bestamente quente e apertado é o que vos dou.

    Curtido por 1 pessoa

    1. acho que vou escrever mais textos iguais a esse… você aparece e me abraça nessa delicadeza de comentário e melhora um dia ruim. Já te falei que você é um anjo? Só me aparece quando preciso.
      Grata por isso! Abraço recebido e sentido.

      Curtir

    1. Lembra da famosa frase que “de poeta e louco, todo mundo tem um pouco?” Claro que nem é dessa forma a frase, mas é o mesmo contexto e sigamos nessa loucura sã de sermos poetas. Abraço

      Curtido por 1 pessoa

  2. Eu nunca fui chamada de louca. Os adjetivos direcionados a mim eram outros. Mas eu tinha medo de enlouquecer. Havia vários loucos na família, que estavam trancados em hospícios até que visitei um deles e vi que a loucura dele era mais saudável que a sanidade de muitos aqui fora. rs

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.