fada/bruxa/flor · Mariana Gouveia

Da cor do meu chapéu

Quando atravessei a porteira ele tirou o capim da boca.
O ar zangado era típico dele. Ranzinza foi logo dizendo:
– Quando eu disser três horas, são três horas! Não tenho de ficar aqui berrando para você vir.
– Uai, eu ia te esperar aqui, fora, sozinha?
– Não precisa me esperar. Quando perceber que cheguei, venha rápido.
– Eu estava terminando de ler as cartas.
– Que cartas?
– As cartas que ela tem nos quadros, na parede. Eu leio pra ela. Olha o que eu trouxe pra você! Pastéis com recheio de cogumelos. Ah, hoje eu vi um cogumelo lilás!
– Lilás? Lilás como?
– Lilás, lilás, quase roxo. Da cor do meu chapéu…Mas é venenoso. Mata em poucos minutos. É só para remédio.
– Eu fico com medo de comer essas coisas de cogumelos que você gosta. Acho que ela te enfeitiçou.
– Epa! Você é mais bocó que eu pensava. Ela não é feiticeira. Ela só meio bruxa, meio fada, meio flor.
– Não existe meio bruxa, nem meio fada, aliás nem existe fada, é lenda. Eu li num livro.
– Se você acha que fada é lenda, então bruxa também é.
– Bruxa mexe com bruxarias, essas coisas. Enfeitiça as pessoas para fazer mal.
– Não sei de onde tirou isso. Ela é apenas meio bruxa, meio fada, meio flor. Não faz mal a ninguém. Pelo contrário. Só ajuda as pessoas e essas, falam mal dela pelas costas. Ela é meio bruxa porque sabe os segredos das plantas. As que curam, as que matam. Meio fada porque tem a magia de trazer crianças no mundo como eu, você, nossos irmãos e os meninos todos da região. Só uma fada tem esse poder. De saber a hora que nasce e meio flor porque ela tem o cheiro de todas as flores juntas. Quando ela passa é como se o vento parasse para ela. Ela só a magia de ser do bem e de amar as pessoas.
– Sei não…só sei que eu não te trago mais se ficar demorando tanto para vir.
– E eu não te trago os pastéis. E ainda digo para ela que você tem medo dela e aí ela vai te chamar para conversar.

Um vento bateu e uma folha balançou fazendo um barulho. Meu irmão correu em disparada e me deixou só.
Tinha medo de qualquer barulho no mato.
Só deixou de ter medo quando virou poeta…

Mariana Gouveia

Agosto é o mês dos diálogos e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

11 comentários em “Da cor do meu chapéu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.