O caminho da armadilha.

O caminho até a casa dela era encantado. Um pequeno trilho entre os arbustos que meus irmãos diziam se tratar do Caminho da Armadilha.
Em cada planta ao redor havia um jeito dela e era remédio, ela dizia que podia curar qualquer doença, mas também podia matar.
– Por isso, crianças, cuidado com o que põe na boca. – ela gritava sempre da janela quando percebia meus irmãos de olho nas frutinhas vermelhas que se apresentavam em uma árvore logo além da cerca.
Parte da vegetação era cerrada e as frutas, muitas, que em sua maioria a gente conhecia e comia. O cerrado nos dava iguarias que não se via em outra parte.
Mas, o que mais me encantava eram as teias de aranha que logo pela manhã, quando íamos levar o leite se estendia feito rede ao longo do trieiro, cujas gotas do orvalho da noite formavam colares na mata entre uma árvore e outra.
A tecelã da magia era mais um termo poético que ela usava e eu só percebi isso depois.
Eu não entendia como os meninos da região, incluindo meus irmãos podiam temer a fada -meio bruxa – meio flor se ela só vivia poesia. Eles nunca ultrapassavam a porteira, que rangia ao pequeno encostar e a missão de carregar o balde até a casa era minha. E a premiação também. As broinhas de milho eram feitas para mim!
Eu adorava essa parte da manhã. Descarregava minha ansiedade em perguntas sobre qualquer dúvida que tivesse enquanto o cachorro Lamparina me cheirava e latia pedindo um pedaço da broa.
Ali, eu ouvia a programação do dia: a cata dos cogumelos, a colheita das folhas, o nascer de um bebê na fazenda vizinha…
E eu voltava saltitante e meus irmãos respiravam aliviados… enquanto eu ia correndo na frente vendo as teias enfeitando de colares a floresta.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das teias e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio Ortega Lunna GuedesRoseli Pedroso Adriana AneliDarlene Regina

13 comentários em “O caminho da armadilha.

    1. Aqui, volta e meia, me aparece daquelas enormes, caranguejeiras, por causa da derrubada da mata ao redor. Sempre as chamo de Jurema, Jureminha, Juremão… depende do tamanho. As do quintal e que me criam esses colares entre as flores/folhas chamo de Cacilda… as suas são mais sofisticadas. Abraço

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