Gosto de existir no mistérios das coisas…

Arterapia:
desenhe sua casa.
As minhas sempre foram ocos de árvore ou botas com chaminés Tudor
ou abóboras com escadas e varais ou cogumelos com hortas.

Luciane Lucieri

Luci,

Estive visitando seus lugares e me perdi entre os mistérios que te rodeiam e a maciez com que você toca minha alma. Vi que encontrou uma carta de amor e que não era destinada a você e resolvi te escrever… não é uma carta de amor ou até é… de um amor nas coisas que gostamos e que guardam mistérios que não sabemos desvendar, nem resolver.

O sol filtrou aqui também, logo além do bosque que já nem existe mais – estão derrubando todas as árvores de lá – onde conheço cada uma.

Dizem que vão construir no lugar mil e quinhentas moradias e sabe-se lá quantos jardins… Mas, já era um jardim que eu mesma fotografei mais de mil e quinhentas vezes os bichos, os brotos dos ipês que nasciam das sementes trazidas pelo sanhaço azul e por descuido ele deixava cair. Fotografei ali vários fins de tardes e algumas manhãs acabadas de acordar. Os cogumelos que nasciam por ali pareciam doces de vó ou o sorvete de flocos da sorveteria da infância. Dava até vontade de comer. A pata de vaca muitas vezes me cedia folhas para o chá contra infecções e as libelinhas azuis cabiam num canto qualquer de tão pequenas que eram.

Agora, aquilo tudo vai se transformar em moradia e hoje, quando fui buscar as cestas para as doações vi tudo limpo. Deu um vazio no peito… Corri para seu lugar e fui beber poesia nos estuques do muro. Ainda bem que tenho as sementes de quase tudo que tinha lá… a maioria brotou como que por encanto e fui estrada afora cavando covinhas e deixando elas em uma nova morada. Achei que devia te escrever sobre isso, Luci e sei que o que sinto é que o mesmo que sentiu quando seu coração se tornou em um cemitério de borboletas tocando Mozart… O meu, hoje se transformou em um de cogumelos, florestas e seres cheios de mistérios que existiam por lá… e não tocava canção nenhuma.

Hoje, tive que criar um lugar para eles no meu quintal, Luci… por que em alguns momentos gosto de existir no mistério das coisas em que ninguém mais acredita.

Abraço carinhoso

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos bosques derrubados e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

7 comentários em “Gosto de existir no mistérios das coisas…

  1. Sei bem o que sentiu, minha cara. Tenho recordações de certos vazios que fizeram estremecer o corpo por dentro e por fora. Fiquei lá, parada, a olhar para o nada e depois vi a placa indicando o que seria feito do lugar. Sempre que passo por lá, agora, e vejo aqueles prédios todos, sinto como se estivesse no lugar errado, percorrido outros caminhos que me levaram a outro endereço. E lá vai o bicho homem…

    Curtido por 1 pessoa

    1. e lá vai… eu, que era rodeada de bosques, estou agora órfã de árvores.
      Infelizmente, o pouco que temos já dá espaço para novos condomínios.

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