a árvore que abraço, com suas flores amarelas, tardias…

Perdeu o cheiro da chuva, depois do vento. O temporal atingiu toda a rua de cima e numa esquina qualquer o vazio das horas. O homem da reciclagem nunca mais passou… ficou a caixa vazia com as garrafas descartáveis e refaço o mesmo percurso diário das vezes que o vi empurrando a carriola para ver se o encontro.
As meninas do clube perderam a hora na última semana. Vieram caber todas dentro de um abraço no portão. Perguntam também pelo homem da reciclagem. A rua de cima é vazia sem ele. Fica esse oco na esquina onde os cães latem em alerta. Lembro-me que ele conhece as constelações todas, sabe o nome dos rios e entende o movimento do vento. Contava a história da árvore que ele mesmo plantara ali, logo acima da casa da esquina, onde morava antes de se mudar. Hoje, é a árvore que abraço, com suas flores amarelas, tardias, fora de hora. É o lugar onde os pássaros buscam abrigo, depois que fiquei órfã de árvore no meu quintal. Podia não saber meu nome direito — me chamava de menina e eu o chamava de mestre mas conseguia colocar esperança dentro das minhas poesias.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais,
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

2 comentários em “a árvore que abraço, com suas flores amarelas, tardias…

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