Começar pela palavra…

Eu reconheço mil peles
Mas só uma digital
Do que toca

Marcos de Faria

Meu caro,

Muitas vezes, a palavra me falta e daí eu tateio as coisas no quintal… depois da chuva faço uma vistoria nas folhas, nas poças d’água para salvar a vida miúda que anda por aqui… nesses momentos eu me sinto a castelã que você descreve na generosidade de amigo. A Mariana que faz com que a vida continue quintal adentro.

E vou reinventando fatos, explorando o pé de algodão e ofereço a mão como abrigo. Você sabia que o Chiquinho – meu beija-flor-menino já dormiu uma noite inteira na minha mão? Isso aconteceu depois de um acidente entre ele e o ventilador da sala. Logo que eu o reanimei, meio em prantos, ele se aninhou em minha mão e não saía de jeito nenhum… por mais que eu o colocasse no vaso da lanterna chinesa – um dos lugares preferidos dele – ele voltava pra minha mão.

Sentei-me no chão da varanda, com a mão apoiada na cadeira e ele até roncou. Você já viu um beija-flor roncar? É a coisa mais linda que há… e quando amanheceu, meu braço quase não mexia… e foi assim que passei uma noite inteira com um beija-flor. Já vivi várias outras aventuras com ele, porque o danado é um menino sapeca.

Tudo isso te contei para falar das coisas que vem parar em minha mão… grilos, gafanhotos, pássaros e uma infinidade de borboletas, mas as joaninhas ganham de todos os outros. Basta um descuido e lá vem uma pousar na minha mão… Talvez, isso responda ao seu comentário da palavra na palma da mão… se até os bichos encontram abrigo nelas, imagine as palavras, moço! É que a poesia ronda aqui desde minha nascença, lá no interior de Goiás.

E olha que vibrei aqui com a citação à Adélia! Nossa, e a Hilda, então?! Fiquei boba que só e resolvi te escrever essa carta apenas para agradecer. E o agradecimento vai em forma de abraço e palavra e com as mãos justapostas em reverência a sua amizade.

Abraço,

Mariana Gouveia
Participam dessa blogagem coletiva:
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

10 comentários em “Começar pela palavra…

  1. Duas coisas: nos “primeiramente” gostaria que todos atentassem para a gentileza de Dona Mariana, a Gouveia. A única que responde a um comentário com uma postagem! Tentaram todos? Então teçam loas! Eu disse duas? Deveria ter dito três, pois que Dona Mariana, castelã de minhas relações, aproveita a resposta para biografar ao tênue, ao intangível. Ora, sabem todos que beija-flores quase não existem, mas minha castelã insiste e não contente, nomeia, dá mapa de vida e torna sólido ao invisível. E temos Chiquinho, o pequenino das mil e duzentas batidas de asa por minuto, do coraçãozinho elétrico e que mesmo dorme na conca da mão e, ó ousadia, ronca quando dorme em abandono. E temos as Joaninhas diversas, cada uma delas um painel de cores e que insistem em ter o polegar de minha castelã para pouso. Mas o que eu gostaria de deixar claro, de tirar do “marrumeno”, do “tipassim”, é que eu gosto imensamente das poetas Adélia Prado e Hilda Hilst e quando as comparo com minha castelã de eleição não é elogio, não é afago. Não mesmo. É que vejo semelhanças, parentesco, um talvez que mesmo tom de vozes. Gosto das invenções das três (e invenção, etimologicamente, é descobrir: “est inventus”). Mas, dulcíssima Dona Mariana, vos direi agora o que me atraiu nos primeiramentes. E é muito simples, deveria ser, talvez seja. Pois bem, é que toda vez que vejo o acrônimo B.E.D.A, que você, seus confrades e consorores da Scenarium utilizam como mote, eu só consigo pensar em Beda, o venerável, monge inglês do século VIII. Não, não adianta tentar me explicar, em explanar sobre o B.E.D.A. vosso, eu sempre pensarei no monge Beda, o inglês. E sempre pensarei em vossos poemas compartilhados como um conclave de monges e monjas. Estranho, comecei com Chiquinho e as joaninhas e terminei com um obscuro monge inglês que talvez ninguém em cem pessoas conheçam. Termino aqui (vêem?), bem aqui e saúdo a minha castelã de eleição, Dona Mariana, a Gouveia, de Goiás e Mato grosso adentro, tecelã de ritmos e arqueóloga de quintais. Vale!

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