Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

Os meus heróis usam máscaras.

Caríssimos,

Enquanto o vento balança no varal e seca as máscaras que eu lavei, escrevo para vocês, que para mim, não têm rostos, apenas olhos atrás de máscaras de diferentes cores e formatos. Nesses olhos eu vejo o quanto de dedicação e amor vocês derramam, dentro do que é possível, para quem está sofrendo a doença ou até para os familiares.

Nesses tantos de dias de pandemia – que eu já perdi a conta e que para mim parecem séculos – eu pouco saí de casa e quase não precisei usar máscaras. Mas, vocês não… é diário e por horas seguidas e nos relatos que leio, nas histórias contadas em jornais vejo nomes por detrás de cada uma e muitas vezes, vi lágrimas também, além de medo e dor.

Eu nasci em um lugar onde as máscaras eram usadas em uma cerimônia que se repetia desde os bisavós, no mês de Junho e que meu pai sempre tratou de seguir, por isso, desde menina, eu e meu irmãos aprendemos a preparar a massa feita com a goma da mandioca e embolar os jornais, revistas e fazer a minha própria máscara. Moldava o contorno do rosto e dava a ela a figura que eu queria ser. Claro que eu sempre escolhia um bicho, e como meu pai dizia que cada um representava a sua natureza eu me via sendo ave, borboletas. O povo da frente trazia na face o interior de sua natureza e monstro cruéis apareciam. Era a cultura de um povoado, que aos poucos foi se desfazendo com a morte de algumas pessoas, que traziam a história na alma ou a mudança de cidade – que foi nosso caso – e as máscaras viraram histórias contadas aos filhos, nas noites de São João.

Mas vocês não! Embora, as máscaras fizessem parte da profissão, vocês foram obrigados a usar como equipamento de segurança enquanto salvam vidas ou veem algumas se perderem. Li relatos lindos em madrugadas de insônia sobre coragem, sobre marcas que ficavam estampadas nos rostos como se fosse uma prensa, sobre a vida tão frágil diante de um vírus que abalou o mundo. Parecia que eu estava diante desses filmes de ficção científica onde os mocinhos usavam roupas brancas, luvas e as máscaras não eram a base de efeitos especiais. Eram de pano ou de material que na verdade não protegia e por isso, muitos desses heróis também não puderam ser salvos.

Aprendi, que quando a batalha fica difícil o mais importante é quem estava do seu lado durante a luta, talvez mais do que a própria luta e tenho certeza de que em cada vida que se foi, um de vocês esteve ali, do lado e posso garantir que fez a maior diferença e eu poderia até dar nomes a alguns de vocês tão perto de mim… mas perderia o sentido dessa carta dizer que o João fez mais diferença do que a Marli, por que não teve um dia sequer desde que esse maldito vírus se instalou que um plantão não teve um rosto mascarado contendo uma lágrima pela perda, pela sensação de impotência, pelo cansaço, fadiga ou dor.

Em um sistema de saúde como o nosso, diante de todas as dificuldades que já sabíamos que tínhamos, o trabalho de vocês foi e é de maior importância. Poderia ter sido muito pior, se é que existe algo pior do que está aí. Mas sim! Poderia ter sido muito mais, porém, por trás de cada máscara de técnico, enfermeiro, médico, assistente social, fisioterapeuta e todos os outros profissionais de saúde tem alguém que se importa com o outro, com a vida que ali está e isso é de uma importância imensa nesse momento.

Em cada afago na mão, cada emoção repassada através do olhar, cada vontade de abraço que não pode ser dado há um herói que se emociona por não estar em segurança com a família, que se fragiliza porque não pode dar mais atenção para quem está sofrendo.

Hoje, digo que, de uma maneira geral, os meus heróis usam máscaras.

Obrigada pela dedicação e cuidado!

Mariana Gouveia

Carta publicada na Revista Plural Mask – Scenarium Livros Artesanais
Ph: Imagem retirada da internet.
b.e.da – Participam desse projeto:
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

15 comentários em “Os meus heróis usam máscaras.

  1. Esses mesmos que usam máscaras hoje, e por isso sufocam o grito de dor, da dor que também sentem, e cujos olhos revelam não o medo e sim a companhia, a compaixão e o amor; esses mesmos que usam máscaras, quando não precisavam e podiam tocar foram os que me deram as mãos e me conduziram por novos caminhos com tranquila segurança. São esses que usam máscaras que um dia ofereceram as suas vidas para que pudesse ter a minha. A eles toda a minha alma e se eu pudesse agora um longo abraço com a água que banha meus olhos castanhos.

    Curtido por 1 pessoa

    1. É muito confortante saber que eles estão sempre ali, para nos ajudar. Perdi muitos amigos enfermeiras, médicos, técnicos de saúde. Eles estão trabalhando no limite. Minha homenagem é por gratidão.
      Meu abraço e emoção se junta ao seu.
      Fica bem e se cuida!

      Curtir

  2. Texto emocionante. Homenagem mais que justa a esses soldados do bem, da saúde, da vida. E como soldados da linha de frente, muitos pereceram ao lado de quem defendiam. A esses anjos, minhas orações e pedido de que tudo isso passe. Fique bem!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Muito bonita essa transição entre as máscaras que expressam a cultura do lúdico, do imaginário e as máscaras necessárias, para sobreviver. Ainda assim, as máscaras se tornaram centro de uma discussão ideológica, além de sanitária. A imaginação talvez não seja suficiente para alcançar as mentes dos negacionistas.

    Curtido por 1 pessoa

  4. À época em que pedi aos autores para escrever textos a respeito de máscaras, eu ainda não estava tão fragilizada com a realidade dessas pessoas. Mas, hoje, tantos meses depois (momento em que o mundo começa a se recuperar de uma de suas fragilidades) choro sempre que ouço seus relatos e me incomoda o descaso demonstrado por um ou outro e pelos ataques que essas pessoas sofreram desde o inicio de tudo isso.
    Triste, minha cara…

    Curtido por 1 pessoa

    1. Como você sabe, tenho dois irmãos que fazem hemodiálise e foram diagnosticados com covid e nesse momento, os enfermeiros da clínica são os anjos que cuidam dele. Também choro todos os dias imaginando o quanto os profissionais da saúde estão sofrendo.
      Muito triste mesmo.
      Abraço, bambina!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.