O que conto de mim.

Minha querida,

O que eu conto de mim tem a parte daquela rua, onde o rio se dobra e o chuá chuá sopra ao ouvido enquanto durmo. O que eu escrevo tem esse riso de irmão sentado na porta contando meus defeitos e olho molhado de amor. Metade de mim no cabelo branco, com a ruga na testa, suor da sua pele magra, que o tempo contou nos dias. O que carrego é essa história e a terra a cavoucar meu pé… é a lembrança de quem está aqui e não está. Outro irmão que mora longe e a voz ecoa reclamando ausência. O que eu conto de mim é esse riso solto, a colina a desvendar as sombras. Com os codinomes de uma fada louca que desenhou histórias nos meus dias. O que conto de mim tem o cheiro do pai.

O leite servido na caneca esmaltada e a poesia que eu pesco, o ombro ali, e na boca que pronuncia o silêncio toda vez que a gente fala de amor.

É tudo uma reza cantada. O avesso da pele — o som do pássaro — e a ave exótica a cantar no quintal.

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…o que conto é o terço em todas as cores espalhadas entre o dia que acontece dentro de mim.

Desvios para atravessar quintais
Diário das quatro estações
Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

10 comentários em “O que conto de mim.

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