6 on 6 – Portas

Falar sobre portas me leva para as igrejas do meu lugar, com suas portas nem sempre abertas. Com suas histórias de fé. Com momentos do seu povo e ritos. Isso me leva para grande parte de minha infância e de minha vida.

As tradições e religiosidades do povo e as características e arquiteturas vão além de templos para os fiéis, muitas delas também são consideradas pontos turísticos. As festas dos santos e tudo que se traduz na vida da cidade.

O povo constrói as tradições através dos tempos e da fé que os move, naquilo em que acredita… Como se a porta sagrada onde se faz o sinal da cruz, os livrasse de todo mal.

Algumas histórias recontadas, transformadas em lendas ou simplesmente passam a fazer parte do cotidiano do lugar.

É impressionante ver que em cada porta que se abre ou se fecha a história fica como testemunha dos relatos, dos mistérios e das confissões de fé.

A historicidade, a tradição e a singeleza do lugar fazem com que toda simplicidade seja mais um motivo da coragem de quem se constrói com fé.

Cada vez que falo de portas, lembro-me de meu pai que sempre dizia: quando Deus fecha uma porta ele abre uma janela… Isso ficou na memória da criança que se tornou mulher. Não é um conselho que eu siga ou fique apegada a isso. Talvez, falando sobre religiosidade, igrejas e fé, o que me vem à memória é um texto que está no meu livro recém lançado, Desvios para atravessar os quintais e retrata bem sobre o que sinto sobre fé, coragem e portas. Muitas vezes, a melhor porta que se abre é a do abraço de um amigo:

“Passei pelo centro quando o sino gemia dentro de um horário errado e me levou para a cidadezinha do interior aonde tudo era feito ao som dos sinos – quando uma criança nascia / alguém morria / alguém chegava / alguém partia e o padre tivesse de passar alguma notícia qualquer – e  o povo todo surgia como um passe de mágica. Ouvir o sino da matriz em seu rugido rouco e enferrujado me fez parar e perceber a mudança na fachada da igreja. Tudo modificado desde a primeira vez que a vi. Pareceu-me que só eu havia ouvido o sino. Pessoas apressadas, em seus vai e vem fazendo contraste com os carros em fila aguardando o sinal abrir. As duas torres, seus relógios e seus vitrais coloridos em sua imensidão passava desapercebida pela multidão. Tudo parecia feito de preto e branco. Os instantes, o dia de hoje, a hora… Lembro-me da última vez que estive ali, a procura de apoio e dei de cara com as portas fechadas. Estava com um diagnóstico dentro da bolsa, com coração alarmado e buscava a esperança na fé. Um dos padres me disse que a igreja estava fechada e mandou-me buscar apoio na igreja do meu bairro. Pareceu-me que ele ainda estava ali, atrás da porta, a sensação da porta fechada… de novo dei meia volta e a igrejinha do meu interior, com as portas sempre abertas… Padre Quirino a cumprimentar as pessoas, a acolher as crianças e a oferecer sempre um abraço. A igreja do meu bairro, naquele dia, também estava fechada, mas encontrei a fé num riso de um médico, que nem abriu o envelope do diagnóstico. Abriu os braços para mim e me acolheu no coração como amiga.”

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora
Participam desse projeto:
Lunna Guedes, Obdúlio Ortega e Darlene Regina

7 comentários em “6 on 6 – Portas

  1. Um dos primeiros lugares que visitei em São Paulo, foi a Igreja da Consolação e me encantei com a história de templo erguido no meio do anda. Soube que a cidade cresceu ao redor dela e acabou por se modernizar e a Igreja se viu obrigada a seguir o mesmo o ritmo. Escrevi sobre isso em Lua de Papel. rs
    Mas eu tenho preferência por templos mais antigos e rústicos como na segunda fotografia. Já fico a imaginar o lugar, a construção e toda a narrativa dita em voz alta pelos moradores.

    Curtido por 1 pessoa

  2. A tradição dos sinos ainda existe na terra onde nasceu a minha mãe. Quando fico um tempo lá, em meio as badaladas, pergunto qual mensagem ressoa naquele instante. É mesmo uma graça todo cortejo.
    Adorei o seu olhar as portas!

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