b.e.d.a – Carta ao palco que você pisou

Eu procuro alguém pra fazer uma poesia, comigo
tem que ser terno e triste
é essencial que seja triste
gestos de poeira, muita saudade e
medo
os olhos de até logo com jeitinho de adeus
tem que ser distraído
sorrir atoa
sempre querer chorar e nunca conseguir
e ter amado
muito

e ter sofrido
e falar muito abandonadamente gestos de poeta que fala sozinho
É preciso ter jeito de quem está querendo ser criança
outra vez e as mãos de um jardineiro quando está chovendo
que saiba muito, como começar a sorrir
mas nunca saiba como começar a falar
Mas a maior urgência que existe,
o essencial,
muito essencial,
é ser imensamente triste


Maria Cecília Nachtergaele.

Querido Matheus,
Bora, bora Caxangá!!!

Faz tempo que desenho essa carta como um abraço, um carinho e ou homenagem. Falamos poucas vezes entre comentários e emojis nas redes da vida, mas eu falo contigo há muito tempo, embora você não saiba, sempre tenho a resposta daquilo que te pergunto.

O meu quintal, hoje amanheceu, avisado de pássaros. Os sabiás dão um show – nunca sei se é mesmo chamando chuvas ou fazendo charme para a fêmea – e foi ali entre o pé de ipê e o de algodão que vi a madrugada quase se despedindo das estrelas que resolvi te escrever.

Endereçar uma carta para você é intimar o palco, então rabisco para ele essas palavras, por que eu vejo o sagrado em todos os lugares onde você foi tanto e quantos. Lembro-me de quando te vi a primeira vez na minissérie Hilda Furacão e eu comentei com quem assistia comigo sobre você ser um diamante pronto. Luxuoso, divino e completo. Com João Grilo, do Auto da Compadecida, eu me apaixonei. Era ali, o simples e tão mágico. O palco sendo apenas amplidão diante de sua arte e sua profissão.

Daí, então, ficou fácil te seguir na arte que te abraçava como quem conquista o que mais queria. Eu te via, assistia e em cada atuação era ali, meu ídolo. Feito de carne e poesia. Arte em cena, humano na vida. O amor pelos cães, a simplicidade com que a voz entoa a fala do que é bonito seja em personagens ou entrevista.

E veio o Processo de Conscerto do Desejo – cinco anos já! – e me vi hipnotizada pelas palavras de sua mãe que ganharam formas com você. A poesia retratada da maneira mais simples que se pode ser. Achei bonito gostar de você. A cada indagação sobre quem eu gostava na TV, Cinema e Teatro, seu nome era o primeiro e ainda é. Talvez essa carta tenha sido criada mentalmente, infinitas vezes, e como rascunhos que vão ficando no fundo da gaveta, ela foi criando vida como quem planta uma semente. Queria que te tocasse como quem vê uma flor que nasce. Mas, como te tocar se você não iria ler?

Um belo dia, te busquei no Facebook e para meu espanto e alegria você respondeu. Não sabia se era uma equipe, se era alguém respondendo por você, mas estava ali, um emoji de coração e a resposta à minha pergunta, que já nem lembro mais qual foi. Só vibrei e daí, passei a acompanhar seus momentos ali, como quem espia no espelho e descobri que por mais que eu te criasse humano, você é ainda maior do que eu acreditava. O outro é seu fundamento maior. Você se preocupa, se ocupa e pensa muito além da arte. Fica muito mais fácil admirar alguém assim, gostar de alguém assim.

Foram poucas conversas. Um comentário, você retribuía, uma pergunta, você respondia e naquele momento eu estava com você, quase tocando sua mão e dizendo: nossa, você é muito bom, cara! E foi isso que pensei em seu último trabalho. Piedade te mostrou tão generoso dentro das cenas que eu só consegui respirar afeto. Pelo cinema, pelo filme e por você.

Talvez, você nunca leia essa carta, talvez nem saiba do meu respeito, carinho e amor por você, pela arte e sua representatividade nesse Brasil com S, como você costuma dizer. Mas deixo registrado esse momento e fica escrita em papel de carta e envelope vermelho para te enviar um dia. Quem sabe.

Com carinho,

Mariana Gouveia
*fotografia retirada da internet sem menção de autoria.
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

ps: Vale a pena ver a entrevista no qual Matheus recita o poema que inicia a carta:
https://www.youtube.com/watch?v=Qw3eXiWWnvA

2 comentários em “b.e.d.a – Carta ao palco que você pisou

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