b.e.d.a – Carta ao avesso de minha cidade

“Não aguento mais ser chamado de pau rodado
Já tomo licor de pequi, já danço o Siriri
Como bagre ensopado
Sou devoto de São Benedito
Até já danço o rasqueado
Sou devoto de São Benedito
Até já danço o rasqueado


Adoro banho de rio, vou direto pra Chapada
Na noite cuiabana tomo todas bem gelada
Sou viciado no bozó, pescaria e cururu
Tomo pinga com amargo
Como cabeça de pau

Eá, Eá, Eá, só não nasci em Cuiabá
Mas no que eu cresci
Meu bom Jesus mandou buscar”.
(Pescuma e Pineto)

Não nasci aqui, mas de fato talvez tenha nascido. Ou nasci lá…
O nascer verdadeiro foi em outro Estado, e talvez possa ter inventado – eu explico – essa miragem do lugar da minha infância. Mas, quando cheguei aqui e me deparei com ruas circundadas pelas palmeiras já centenárias e ipês floridos… duvidei do que via – e passei a “inventar” minha cidade de morar.
O cheiro do quintal e suas mangueiras a cantar frutos para o vento… Os pés de cajus a servir de comida para os pássaros pareciam desenhados na minha memória. O pomar era no fundo da casa da vizinha… no meu próprio quintal e calçada afora, dentro do espaço por onde passava.
O linguajar do povo em sua melodiosa prece… as igrejas a desejar a fé nos infinitos terços nos dias da semana. O rio que dá o nome à cidade… a abraça até avançar rumo ao Pantanal. Circunda os bairros e dá alimento aos moradores.
As ruas antigas contrastam com o moderno. Ali, onde cato poesia, descubro o avesso desse lugar que amo… Adoro essa rotina radiante de dia de sol e seu calor abundante que colore meu quintal… minha rua – meu lugar.
Mas, amar essa cidade gera conflito… porque ela mudou tanto, e ainda assim, continua igual.
Antigamente, era tranquilo descrever meu amor por ela… na calçada onde as famílias sentavam para contar seus velhos causos. Meus olhos avistavam a vida na leveza do vento que batia nas folhas da mangueira, que me traziam sombra e aconchego.
Eu não entendo mais esse lugar como antes…e, talvez, você perceba que é isso o que me encanta. Já não há mais cadeiras nas calçadas e nem a criançada a brincar de pipa, bolinha de gude e pique-esconde. Tudo se tornou tão distante das vilas, e os prédios multiplicaram aos meus olhos.
Sinto falta dos lugares feitos para mim… onde me encontrava em poesia e rabiscava nos muros os meus primeiros poemas de amor… falava da cor que diversificava em vários tons da cidade verde… do fruto doce – que como presente nasce no meu quintal. Do sol abrasador que me aquecia… e de que eu, insatisfeita, sempre reclamava.
Eu sempre amei esse pedaço de chão e, ao mesmo tempo, tive raiva… quando as ruas se abriram para mim, me envolvendo com as folhagens das palmeiras que ladeava os caminhos por onde eu passava. E eu, menina, corria solta pela vida… sonhando com a cidade sendo notícia no mundo – senhora de si – com suas cores redesenhando o amor que eu sentia.
Vestia de chita, enchia de poesias as vielas. Serenava nas madrugadas frias… umedecia nas tardes de calor.
Reclamava, reclamava e, mesmo assim, longe daqui, queria existir nela…porque
sempre amei desbravar rotas novas, desvendar os lugares secretos. Comer e beber da fonte do rio… na essência pura de alma cuiabana que tenho.
Eu sei que tudo isso está aqui ainda, mas aquela menina… que aprendeu a desvendar o amor que sentia pela sua cidade, cresceu. E o amor…  infinito, cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que abrasa – e torna especial e único –  meu lugar.
Com o tempo, me transformei em arrogante, pelo simples fato de poder possuir as ruas, e dançar sob os ipês coloridos dos parques, porque queria o melhor lugar para viver. Mostrar ao mundo a beleza que cada canto continha.
Eu andei por aí e, nos becos, descobri que a força da cidade não é mais a ingenuidade de menina. A cidade cresceu também e tomou proporção de gigante. Seu tamanho é efêmero, porque guarda a singeleza do seu linguajar. Ela se tornou maior do que podia aguentar e, ainda assim, permanece intacta na simplicidade.
Já fui para outros lugares, outros amores…  sempre voltei, por vezes insatisfeita, mas com a sensação de que só aqui poderia chamar de lar… Porto seguro.
Ali, entre a ponte que dividia lugares… que guarda meus desejos mais secretos e que, para ninguém descobrir, o vento levou. Aqui, debaixo das árvores que cede a sombra fresca durante o calor… e nas calçadas onde cresci, sentindo o aroma doce do cerrado…
Busco justificativas para tudo o que eu sinto… Ainda me encanta a diversidade… os mil jeitos. A mansidão com que me abraça, mas eu odeio a falta de regras, a desigualdade, a falta de respeito, de solidariedade que existe.
Pode ser que eu me engane ao ver nascer uma flor debaixo de tanto concreto… onde as escadarias me leva aos lugares de fé, ao acreditar ser possível que esse lugar continue o mesmo… e mude. Que os encantos aconteçam nas manhãs em que vejo pássaros tão variados voando no céu cinzento, e pense que ainda é a menina simples que me encantou.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Avesso – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.


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