Mariana Gouveia · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – Carta de mim para mim

Sabe, falar com você às vezes é como falar com uma estranha… tão íntima que, preciso mergulhar na vida, para te contar.
Eu estou aqui atrás do espelho. Quase rio, quase água, a ondular lembranças de nós duas. Resolvi escrever dentro dessa saudade, do cheiro da floresta, do chá que ainda fumega por aqui e descubro que olhando através da opacidade das lembranças, você é ainda aquela menina que não cresceu dentro de mim. O cheiro do bolo de laranja invade sua cozinha, enquanto abre a geladeira e seus pensamentos se voltam para cá. Um tempo a permanecer vivo em sua memória enquanto o beija-flor visita o varal de roupas e você o chama pelo nome que escolheu.
O gosto do capim dourado, ainda verdinho corre na saliva e traz a mágica que faltava. Acho que é esse gosto que te prepara para os dias reais. Esses em que você acorda descabelada e percebe, aí, do outro lado do espelho que a tinta precisa ser retocada, a sobrancelha feita e o batom já está no fim do tubo. É preciso ligar para a revendedora – pensa – enquanto aqui, o que tinge minha boca é o picolé de uva que era dividido entre os seis irmãos. Um mais afoito dava a mordida para a bronca da mãe logo vir.
Ainda estou com as tranças amarradas com a fita laranja de veludo e que não paro de tocar, por causa da maciez que sinto nos dias vividos, quase conto de fadas, feitos de histórias, onde eu era você e pronto.  E você, além da maciez se encantava pela cor. Tudo que tocava era vivificado pela cor laranja.
Era assim a rotina dos dias, enquanto te vejo na correria entre a cozinha e o banheiro. O quarto e a sala. A comida do cão, o café solúvel – que pela falta de tempo não usa o coador de pano que a mãe mesma costurava – a esfriar dentro da xícara e eu saboreio o crepitar do fogão a lenha e o aroma a invadir os quartos e deles sair os irmãos a pedir o bolo de fubá da mãe.
Era qualquer dia do fim de maio e a estação antecipada nas manhãs tingia de branco os campos e o pai coçava a cabeça a pensar na geada a repetir que nem era inverno ainda enquanto você ai se abana na manhã quente. Pensa no ônibus, na lista de compras e eu, a espreitar a água límpida dentro do barquinho na beira do rio onde os peixinhos lambaris mordiscam os meus dedos. O caminhar até a floresta para a casa de dona Fulô era feito na singeleza dos pulos. O seu caminhar até o ponto de ônibus ganha ares de abraços das meninas do clube – nessa hora, somos quase a mesma – perdida dentro dos abraços que nos energizam.
Eu, no colo da avó postiça, com jeito de bruxa, cara de fada e amor de flor;
você, dentro da voz encantada de a pouco e a manhã transcorria dentro dos nossos nadas.
Eu, a menina do tapete, encantada pelos campos de girassóis, pela moita do capim dourado, e pelo tear que desenhava tecidos nas mãos da mãe. Você, a mulher das palavras, dos naufrágios todos, dos mergulhos oceânicos. A que precisa decidir o que fazer no almoço e a pauta da reunião na empresa; você, a menina de junho, das festas dos santos, das rotas desbravadas em meio as teias de aranha que seu irmão morria de medo. Eu, a menina da geografia espalhada debaixo dos meus pés, sem medo dos formigueiros e suas donas engraçadas a destruir o pé de rosa preferido da mãe. Eu, que nunca conseguia dar respostas às tuas perguntas – do que são feitas as nuvens? E essa grama tão verde, quem pintou? Como chegar nas estrelas? Como avião voa? – e viriam depois dessas mais infinitas questões e eu me perdia em respostas que não te alcançava, para fazer outras que você não cabia.
Eu que sempre soube dos seus imensos temporais internos, dos abalos sísmicos do coração. Você, a louca que sempre clamava a pele, toque, abraço, mãos. Seja em uma árvore onde desenhava corações, ou na estradinha onde escrevia poemas com o nome do menino da fazenda vizinha. A impetuosidade a gritar dentro e a calma com as águas que te fazia descendente delas. Era como se você sempre fosse esse encontro a outro mundo, Fosse sempre esse estado da matéria. Eu, quase lunática, quase volátil e você tão palpável, tão terrestre. Uma precisando da outra pra viver.

E a gente que era riso e choro. Éramos sem fronteiras, dentro dos nossos gestos. Uma a chuva, enquanto a outra, o sol.
Você o silêncio habituado nas noites serenas. Eu, os lugares desconhecidos onde os pássaros acordavam a madrugada que você acolhe tão bem. Eu diurna, à espera, desse lado do espelho. A espiar janelas abertas que você sempre esquecia de fechar. Você noturna, conhecedora das estrelas e sabia descrever a previsão do tempo por elas. Você a conhecer a flores e o jeito de florescer de cada espécie, só porque a fada te contou e aprendeu.
Enquanto eu sonhava com o rio e o barco a atravessar um oceano e você a dizer na segunda pessoa o: tu não sabes que barco de rio nunca cruza oceano?
Eu que conhecia a assimetria da areia a desenhar a prainha onde a mãe buscava a matéria de arear as panelas de alumínio tão brilhantes que pareciam espelhos. Você que conhecia o rio tão bem que o descrevia em palavras que parecia poema de amor e que era espelho onde você penteava os cabelos molhados…O mesmo rio furioso que comia as margens na pororoca que invadia nosso quintal. Éramos as duas, uma que salvava a porquinha que tinha o coração em uma pinta nas costas. A outra, que mergulhava na correnteza exuberante diante dos olhares assustados dos pais.

Hoje, de vez em quando, abre o portal e começa a desenhar trovões na noite onde o céu mostra seu negrume. Enquanto sou apenas respostas nas cartas que escreve.
Não quero que se perca nas manchetes de jornais, nas palavras escritas e nem nas ondas que navega em teimosia ao amor.
Quero que me encontre quando de noite, na solidão das horas de insônia e descubra que apesar de tanto tempo nos separar, somos sempre uma só.

Beijos,

Eu, você,
Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural La Barca

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

15 comentários em “b.e.d.a – Carta de mim para mim

  1. Eu já li essa missiva algumas vezes e fiquei um pouco mais em uma frase. Um pouco menos em outra. Suspirei algumas centenas de vezes. E sinto que morri em algum paragrafo. Acho que foi na pergunta sobre o barco de rio. E quase fiz um de papel aqui só para teimar e ver onde iria parar. rs

    bacio cara mia

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