b.e.d.a – Carta ao meu pai aos cuidados de Agosto

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Sabe, pai, amanhã é seu dia. Embora eu não ligue muito para esse negócio de dia, escrever-te virou rotina no segundo domingo de agosto. Faz com que esse laço se reforce ainda mais.
Enquanto te escrevo, eu ouço o rádio e isso me lembra que foi você quem me fez apaixonar pelo rádio.
Logo cedo, acordávamos ao som de Zé Bétio chamando todo mundo para levantar. E ali, diante daquele aparelho, cresci ouvindo músicas da melhor qualidade. Ouvindo histórias que emocionavam. Ouvindo e aprendendo a torcer pelo Brasil.
Naquele tempo, o rádio era o único contato com o mundo externo e veja você, que a gente sabia até o que acontecia no exterior.
Continuo ouvindo rádio e hoje, faço parte dele.
A gente fala de antigamente e tudo parece que foi ontem e o seu riso continua igual quando eu era menina.
Os seus cabelos branquearam com o tempo e você parece um personagem das histórias que eu lia nos livros.
Sabe, pai, tudo que eu sou tem sua mão – minha fé, minha conduta e meu jeito diante do mundo – tem parte daquilo que me ensinou.
Você sempre carrega no olho a esperança e é essa mesma esperança que criou semente em mim. E alguém pode até perguntar: esperança em que?
E eu digo que é a esperança na vida. De que tudo pode e deve ser para o bem e pelo bem.
Dias atrás, quando te vi, reparei que essa mesma esperança ainda mora li, no seu olho. Fiquei sentada algumas horas em silêncio, perto de você e ali, passou-se toda nossa vida, pai. Até sua mania de não querer tirar fotos continua igual.
E seu jeito de elevar o olho pro céu quando fala em Deus. A maneira de olhar para a gente como se ainda fôssemos crianças e como se estivesse sempre nos benzendo. Queria tocar em tanto assunto, mas o medo de você emocionar me podou. E foi em silêncio que a gente mais falou. Não precisava dizer nada.
Aprendi a benzer com você, pai e quando me perguntou sobre isso, vi que esperava que eu dissesse que continuava seu ofício. E continuo, pai…eu benzo as pessoas que cruzo na rua. As crianças que me tocam com o olhar, nos ônibus. Você riu diante da modernidade das bênçãos de hoje. Te explicar que hoje em dia, já não se cuida mais de arca caída como antigamente, nem de quebrante, é o mais difícil. Porque você no seu mundo limitado pela cadeira de rodas, acredita que tudo continua igual e que o rádio ainda tem os mesmos programas e que apesar de já ser mãe, ainda sou sua criança.
Sabe,pai, o dia dos pais pela simbologia do dia é para presentear e agora, descubro o quão abençoada sou. Você me deu uma riqueza de presente. Gosto do que vejo em mim. Gosto desse reflexo que me tornei de você. E gosto imensamente de ser sua filha.
Não vou poder te abraçar amanhã, fisicamente. Mas, te abraço todos os dias em pensamento e quando me preparo para a oração, minha referência é você e diante de minha fé eu renovo a tua.
Apesar de sua limitação, descobrimos que a gente pode voar e agora, pai, estou em pleno voo na exata direção do seu colo.
Benção, pai!

Beijo
Mariana Gouveia
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

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